Viajar por via aérea: considerações para a saúde:
O volume do tráfego aéreo intensificou-se rapidamente nos últimos anos. O número de voos de longo curso cresceu de forma considerável e a distância aérea percorrida sem interrupções, com o consequente aumento do número de horas na duração dos voos, continua a aumentar. A capacidade de transporte de passageiros em longas distâncias também aumentou, pelo que um número cada vez maior de pessoas pode viajar no mesmo voo. Os passageiros frequentes constituem uma proporção substancial dos viajantes actuais. Segundo a Organização Internacional da Aviação Civil, o número de passageiros excedeu os 1 562 milhões em 1999 e os 1 647 milhões no ano 2000.
As viagens aéreas, em especial as de longa distância, expõem os passageiros a inúmeros factores que podem interferir com a sua saúde e bem estar. Viajantes com problemas de saúde preexistentes estão mais susceptíveis a estes factores. Os riscos para a saúde associados às viagens aéreas podem ser minimizados desde que o viajante faça um planeamento cuidadoso da viagem e tome algumas precauções relativamente simples antes, durante e após o vôo. Outros factores que podem interferir com a saúde e o bem-estar dos passageiros são a seguir descritos.
Pressão do ar na cabina:
Embora as cabinas dos aviões sejam pressurizadas, a pressão do ar diminui com a altitude, tornando-se mais baixa que a pressão ao nível das águas do mar. Numa altitude típica develocidade de cruzeiro, a 11 000 metros (37 000 pés), a pressão do ar na cabina é equivalente à de uma altitude de 1 500 – 2 500 metros (5 000 – 8 000 pés) acima do nível das águas do mar. Consequentemente, o oxigénio disponível diminui e os gases no organismo expandem-se. Os efeitos desta diminuição da pressão do ar na cabina são geralmente bem tolerados pelos indivíduos saudáveis.
Oxigénio e hipóxia:
Durante todas as diferentes fases do voo, o ar da cabina contém oxigénio suficiente para passageiros saudáveis. Contudo, porque a pressão do ar na mesma é relativamente baixa, a saturação em oxigénio do sangue está ligeiramente reduzida, conduzindo a uma hipóxia ligeira (i. e., menor distribuição de oxigénio nos tecidos). Os passageiros com doenças cardiovasculares ou respiratórias ou com determinadas alterações hematológicas, como a anemia, podem não tolerar convenientemente a hipóxia. O efeito do álcool no cérebro é agravado pela hipóxia.
Expansão do gás no organismo:
Como resultado da redução da pressão do ar na cabina, o ar expande-se em todas as cavidades do organismo onde está presente. A expansão do gás abdominal, por exemplo, pode originar um desconforto moderado, exacerbado pelo consumo de bebidas com gás ou pela ingestão de certos vegetais. À medida que o avião ganha altitude, o ar escapa-se do ouvido médio e dos seios perinasais, geralmente sem provocar problemas. Também o ar que se encontra no interior do ouvido médio sofre alterações e, à medida que o avião perde altitude, há reentrada de ar nestas cavidades de modo a igualar as pressões internas e externas. O desconforto inerente a este igualar de pressões pode ser aliviado com a deglutição, mastigação ou bocejar; se o problema persistir, a expiração forçada com o nariz e boca fechados pode produzir algum alívio. Nas crianças, a ingestão de alimentos ou a administração de um estimulante da deglutição pode reduzir estes sintomas.
Pelo que ficou descrito no parágrafo anterior, facilmente se compreende que as pessoas com infecções no ouvido, nas fossas nasais ou nos seios perinasais devem evitar as viagens aéreas, uma vez que, pela dor e pelo risco de agravamento da lesão, são incapazes de igualar as diferenças de pressão. Se a viagem não puder ser evitada, no caso de surgirem problemas durante o voo, umas gotas de um descongestionante nasal podem ser úteis.
Também os indivíduos que sofreram recentemente certos tipos de cirurgia não devem realizar deslocações aéreas durante um certo período de tempo, pelo risco de lesão resultante da expansão gasosa.
Humidade na cabina:
A humidade relativa dentro do avião é baixa, geralmente inferior a 20%. Embora exista um risco mínimo para a saúde, esta baixa humidade pode causar desconforto nas mucosas (olhos, boca, nariz), o qual pode ser minorado pela ingestão de muitos líquidos antes e durante o voo, mediante a aplicação de uma loção hidratante na pele, a utilização de um spray nasal hidrossalino para hidratar as mucosas nasais e a utilização de óculos em vez de lentes de contacto.
Desidratação:
A não ser que se mantenha uma adequada ingestão de líquidos, nas viagens longas de avião pode ocorrer alguma desidratação. Uma adequada ingestão de líquidos significa beber líquidos que não contenham álcool (água e sumos de fruta) antes e durante o voo. Como o álcool contribui para a desidratação, o seu consumo deve ser restrito ou evitado durante o mencionado período.
Ozono e radiação cósmica:
A concentração de ozono (oxigénio triatómico, O3) e a intensidade da radiação cósmica aumentam com a altitude. O ozono é facilmente convertido em oxigénio pela acção do calor e através de vários processos catalíticos. Nos modernos aviões a jacto, praticamente todo o ozono do ar ambiente é convertido em oxigénio nos compressores responsáveis pela pressurização do ar na cabina. A altitude normal de cruzeiro, a concentração de ozono na cabina é negligenciável. No entanto, durante a aterragem, quando a potência do motor é baixa, o aumento do ozono é prevenido por conversores catalíticos.
As radiações cósmicas resultam da soma das radiações solares com as galácticas. Ao nível das altitudes a que circulam os aviões, o campo de raios cósmicos consiste em radiação de baixa ionização e em neutrões. A atmosfera e o campo magnético da terra são escudos naturais contra este tipo de radiações. No entanto, os níveis de radiação cósmica são significativamente mais elevados nas latitudes polares, comparativamente às latitudes equatoriais, devido à orientação do campo magnético e ao “achatamento” da atmosfera terrestre sobre os pólos Norte e Sul. A intensidade da radiação cósmica aumenta com a altitude e estima-se que duplique a cada 1 500 metros (5 000 pés). Nas altitudes habituais de cruzeiro, acima dos 60ºN (Canadá, Escandinávia, etc.), a dose média esperada de radiação é de aproximadamente 0. 3 mSv por 100 horas. A título comparativo, a radiação natural proveniente do solo, da água e dos materiais de construção é de aproximadamente 2 mSv por ano, na maioria dos países. A Comissão Internacional de Protecção Radiológica definiu 1mSv como unidade básica de segurança para a protecção da saúde do público em geral, contra os perigos emergentes de radiação ionizante adicional.
Enjoo:
Excepto em caso de uma enorme turbulência, o enjoo é raro nos viajantes de avião. Os passageiros susceptíveis a esta situação devem solicitar lugares na zona da asa do avião e/ou à janela, e manter sempre acessível o saco de enjoo. Se necessário, pode-se optar pela toma profilática de um medicamento adequado.
Imobilidade e problemas circulatórios:
A imobilidade prolongada, em especial quando o indivíduo está sentado, favorece a acumulação de sangue nas pernas, o qual conduz ao inchaço (edema) duro e ao desconforto.
A estase circulatória é um factor que predispõe ao desenvolvimento da trombose venosa (formação de coágulos). No caso das viagens aéreas, é possível, embora não seja cientificamente provado, que existam outros factores ligados ao ambiente do voo que contribuem também para a trombose venosa.
A maioria dos trombos (coágulos) venosos são assintomáticos e reabsorvidos sem qualquer consequência. Ocasionalmente, se um trombo venoso emboliza na corrente sanguínea e sobe ao pulmão (ou seja, se o coágulo se desprende do endotélio da veia, entra na circulação sanguínea e chega ao pulmão) pode causar embolia pulmonar. Neste caso, a trombose venosa pode ter consequências graves, provocando dor torácica e dispneia (falta de ar). Quando o trombo se desloca para o cérebro (trombose cerebral), pode mesmo provocar morte súbita. Tudo isto tem possibilidades de ocorrer horas ou mesmo dias após a formação do
trombo.
O risco de desenvolver uma trombose venosa profunda é muito reduzido, a menos que existam factores de risco adicionais preexistentes para o trombo-embolismo. Estes compreendem:
— História anterior de trombose venosa.
— Idade superior a 40 anos (o risco aumenta com a idade).
— Uso de estrogénios (contraceptivos orais ou terapêutica hormonal de substituição).
— Gravidez.
— Traumatismo ou cirurgia recente, particularmente cirurgia abdominal ou dos membros inferiores.
— Cancro.
— Alterações genéticas da coagulação sanguínea.
— Insuficiência venosa crónica (varizes ou veias varicosas).
— Insuficiência cardíaca congestiva.
— Obesidade.
É recomendado às pessoas com um ou mais factores de risco assinalados que procurem aconselhamento médico antes de viajar.
Precauções:
Os efeitos negativos da imobilização prolongada podem ser reduzidos mediante execução de exercícios simples a intervalos frequentes durante o voo. Muitas companhias aéreas providenciam conselhos úteis sobre exercícios durante o voo que estimulam a circulação, reduzem o desconforto, a fadiga e a rigidez, diminuindo assim o risco de desenvolvimento de trombose venosa. Por vezes, o uso de meias elásticas especiais para viagens aéreas pode ser útil. Em qualquer dos casos, a bagagem de mão não deve ser colocada em zonas que impeçam os movimentos dos membros inferiores (pernas e pés). Também o vestuário deve ser largo e confortável. Com base na evidência de que a utilização da aspirina após a cirurgia previne a trombose venosa, esta é frequentemente recomendada aos passageiros de voos de longa duração. Contudo, ainda é necessário investigar se existe qualquer efeito protector durante as viagens aéreas. A aspirina não deve ser utilizada em viajantes com contra-indicações médicas, como por exemplo naqueles que têm discrasia hemorrágica (distúrbios da coagulação do sangue) ou úlcera péptica, dado o risco de reacções adversas. A injecção de heparina de baixo peso molecular pode ser prescrita a viajantes de elevado risco.
Após a chegada, o viajante pode reduzir os efeitos da jornada executando exercícios leves que estimulem a circulação sanguínea.
Jet lag:
O jet lag diz respeito à alteração dos padrões do sono e de outros biorritmos circadianos (relógio biológico interno do organismo) causada pela passagem por muitos fusos horários num curto período de tempo (por ex. nos voos este-oeste ou vice-versa). Os efeitos adversos do jet lag são geralmente a desidratação, a fadiga e o stress, podendo conduzir à indigestão, ao mal estar geral, à insónia e à redução no desempenho físico e intelectual.
Há algumas estratégias úteis para amenizar os efeitos do jet lag (ver abaixo). Os viajantes que tomam medicação em horário fixos (por ex. insulina, contraceptivos orais) devem procurar aconselhamento médico antes da viagem.
Medidas gerais para reduzir os efeitos do jet lag:
− Descansar bem antes da partida e o máximo possível durante o voo, incluindo o sestas curtas.
− Beber muita água e/ou sumos de fruta antes e durante o voo.
− Comer refeições ligeiras e limitar o consumo de álcool antes e durante o voo.
− Adaptar-se ao horário do destino o mais rapidamente possível (hora das refeições, sono), começando desde logo e, preferencialmente, durante o voo.
− Após a chegada, garantir a exposição à luz natural do sol.
− Os hipnóticos de curta duração podem facilitar a adaptação aos padrões de descanso após a chegada devendo ser utilizados de acordo com indicação médica1.
Aspectos psicológicos:
Embora cada vez mais vulgares, as viagens aéreas não são uma actividade natural para os seres humanos. Frequentemente, os viajantes de avião sentem dificuldades do foro psicológico. Os principais problemas encontrados são o stress e o medo de voar, que podem ocorrer em conjunto ou separadamente, antes e durante o período da viagem.
A fobia de voar (medo de viajar de avião):
Uma proporção considerável da população dos países industrializados experimenta algum medo de voar. Este aspecto pode ter efeitos adversos significativos na vida pessoal e profissional.
A fobia de voar está frequentemente associada a outras fobias, como a claustrofobia e a agorafobia. Adicionalmente, os níveis de ansiedade podem exacerbar-se pela presença de outros factores relacionados com o stress, perturbações da personalidade ou alterações do foro psiquiátrico. O tratamento baseia-se na identificação da causa, sendo a dessensibilização a intervenção mais frequentemente utilizada.
Os viajantes que têm medo de voar, mas necessitam de fazer uma viagem aérea, devem procurar aconselhamento médico antes da viagem. O recurso a tranquilizantes ou betabloqueantes pode ser útil em alguns casos. Os viajantes que tomam tranquilizantes não devem consumir álcool e a dose administrada não deve impedir o despertar do viajante em caso de emergência.
Para um tratamento de longa duração, é recomendável um apoio especializado para reduzir o impacto das dificuldades do foro psicológico associadas às viagens aéreas. Várias companhias aéreas oferecem cursos de dessensibilização para reduzir ou curar este receio.
Fúria durante o voo:
É relativamente recente o seu reconhecimento como forma de comportamento disruptivo ou desadaptado associado às viagens aéreas. Parece estar relacionado com níveis elevados de stress, mas não especificamente ao medo de voar. É frequentemente precedido pela ingestão excessiva de bebidas alcoólicas.
Viajantes com necessidades especiais:
Cada companhia aérea tem a sua política relativamente ao transporte de passageiros com necessidades especiais. O que a seguir se descreve são exemplos de directivas comuns.
Recém-nascidos e crianças:
As viagens aéreas não são recomendadas a crianças com idade inferior a 7 dias de vida. No caso dos recém-nascidos prematuros, o aconselhamento médico deve ser individualizado. As alterações na pressão da cabina pode causar sofrimento, o qual pode ser amenizado pela ingestão de alimentos ou por estimulantes da deglutição.
Os recém-nascidos e as crianças mais jovens são mais susceptíveis à desidratação que as crianças mais velhas e os adultos. Deve-se garantir uma ingestão de líquidos adequada antes e durante o voo. Uma dose suplementar de fluidos (água ou sumo diluído) deve ser providenciada em voos de longo duração.
Mulheres grávidas:
Os voos comerciais são geralmente seguros para a mãe e para o feto. Contudo, não são recomendadas as viagens aéreas no último mês da gravidez ou até 7 dias após o parto. A maioria das companhias aéreas restringe o acesso das grávidas. As directivas comuns na gravidez não complicada são na gravidez:
− Única, viagens de longo curso até à 36ª semana.
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1 A melatonina actualmente disponível em poucos países (comercializada mas não aprovada pela Food and Drug Administration dos EUA) é utilizada por alguns viajantes para voltar a sincronizar o relógio biológico interno do organismo.
− Múltipla, viagens de longo curso até à 32ª semana.
A partir da 28ª semana, é aconselhável levar um atestado/declaração médica confirmando o bom estado de saúde, a gravidez normal e a data prevista do parto. Algumas companhias aéreas exigem um atestado médico se a data esperada do parto for 4 semanas antes da data da partida ou se estiver prevista qualquer complicação no parto.
Doença preexistente:
Pessoas portadoras de cancro, patologia cardiovascular, doença respiratória crónica, epilepsia, anemia severa ou diabetes mellitus instável; pessoas sob medicação imunossupressora, em hemodiálise; ou pessoas cuja forma física seja questionável, devem consultar o seu médico antes de decidirem realizar uma viagem aérea. Em caso de dúvida a companhia aérea pode requerer um atestado médico.
Toda a medicação para administração durante a viagem e no destino deve ser transportada na bagagem de mão e estar sempre acessível.
Voar é, geralmente, seguro para passageiros com pacemakers. Os sistemas unipolares são mais susceptíveis a interferência electrónica durante o voo e é importante a informação relativa ao efeito dos aparelhos de segurança dos aeroportos sobre os pacemakers. Os sistemas bipolares não são afectados. No entanto, os aparelhos de segurança manuais podem interferir com desfibrilhadores automáticos implantados, pelo que nestes casos, os viajantes deverão ter consigo uma declaração médica que especifique este risco.
Fumadores:
É interdito fumar nos aviões, excepto em algumas companhias aéreas. Os grandes fumadores podem sentir stress e desconforto, especialmente em voos de longo curso, pelo que podem beneficiar de aconselhamento médico antes de realizar um voo desse género. Os patches ou pastilhas de substituição da nicotina podem produzir algum alívio e pode-se considerar igualmente o recurso a um tranquilizante moderado.
Viajantes com deficiência:
Uma incapacidade física não constitui geralmente contra-indicação para a viagem. Os passageiros impossibilitados de zelar pelas suas necessidades (incluindo o uso do W.C. e transferências da cadeira de rodas para o assento e vice-versa) devem ter um acompanhante adequado. Os passageiros confinados a uma cadeira de rodas devem ser aconselhados a não se desidratarem deliberadamente antes do voo (como meio de evitar o uso dos W.C. durante os voo).
As companhias aéreas têm regulamentos sobre as condições de viagem dos passageiros com deficiência. Estes passageiros devem contactar antecipadamente a companhia aérea para orientação sobre as condições em que podem efectuar a viagem.
Transmissão de doenças infecciosas:
Os viajantes devem ser tranquilizados sobre o facto de o risco de transmissão de uma doençainfecciosa a bordo de um avião ser muito reduzido.
A qualidade do ar da cabina do avião é cuidadosamente controlada. A troca com o ar exterior e a filtração do ar em recirculação garantem uma troca total do ar de aproximadamente 20 a 30 vezes por hora. Este nível de ventilação é muito superior ao de qualquer edifício e assegura que a contaminação seja mínima. Os aviões modernos permitem a recirculação do ar na cabina até 50%, utilizando filtros altamente eficientes, (filtros HEPA: high-efficiency particulate air), que captam as partículas de material, bactérias, fungos e a maioria dos vírus. Consequentemente, o ar em recirculação na cabina é muito puro.
É pouco provável a transmissão de agentes infecciosos por via aérea entre passageiros, mas pode ocasionalmente ocorrer quando se encontram muito próximos da fonte de infecção. O vírus influenza (da gripe) pode ser transmitido entre passageiros sentados perto uns dos outros. A transmissão deste vírus é mais provável a bordo da aeronave quando esta permanece em terra por um longo período com os sistemas de ventilação desligados. Outra situação é a tuberculose. Em alguns casos raros, o bacilo da tuberculose foi transmitido a passageiros sentados na proximidade de um indivíduo com esta doença. A maioria das pessoas não desenvolve doença clínica após o contacto com o bacilo da tuberculose, e nos poucos casos transmitidos a bordo da aeronave, nenhum dos passageiros a desenvolveu.
Os indivíduos com doenças contagiosas não devem realizar viagens aéreas, seja por razões de saúde pessoal, seja pelo risco de infectarem outros indivíduos ou de transmitirem a doença de um país para outro.
Desinfestação do avião:
Muitos países exigem a desinfestação (tratamento para eliminação de insectos) dos aviões provenientes de países onde ocorrem doenças transmitidas por vectores (por ex. malária, febre amarela). Esta medida impede a introdução de infecções por insectos inadvertidamente transportados a bordo da aeronave. Estes insectos que se introduziram no interior da aeronave em zona endémica podem infectar os passageiros ou escapar para o exterior em zonas onde não existe a doença. É o caso de surtos de malária nas proximidades de aeroportos, em países onde esta doença não existe. Alguns, como a Austrália e a Nova Zelândia, procedem à desinfestação de rotina, com vista a impedir a introdução inadvertida de espécies que possam
prejudicar a agricultura.
A desinfestação é uma medida de saúde pública que consta dos Regulamentos de Saúde Internacional. Implica o tratamento do interior do avião através da aplicação de insecticidas. Os diferentes procedimentos utilizados actualmente são os seguintes:
− Pulverização o interior do avião com insecticidas à base de piretróides de acção rápida, com os passageiros a bordo, imediatamente antes da descolagem.
− Tratamentos do interior do avião em terra, antes de os passageiros subirem a bordo, usando um insecticida em aerossol com permetrina, e tratamento adicional do referido avião durante o voo, com um insecticida em spray de acção rápida, pouco antes da aterragem.
− Aplicação regular de insecticida residual em todas as superfícies internas do avião, excepto nas áreas de preparação de alimentos.
Os passageiros ficam, por vezes, preocupados com a sua exposição aos insecticidas em aerossol nas viagens aéreas. Existem alguns relatos de mal-estar após desinfestação do avião, mas não há evidência de relação causal entre a exposição aos piretróides ou compostos dos sprays e o desenvolvimento de sintomas, desde que os métodos e os produtos recomendados sejam utilizados correctamente na desinfestação.
Assistência médica a bordo:
A maioria das companhias aéreas com voos internacionais tem um plano de acção para gerir incidentes médicos a bordo e a tripulação recebe formação para esse efeito. Os aviões com um número elevado de passageiros têm habitualmente o seguinte equipamento de emergência:
− Um ou mais estojos de primeiros socorros, para serem utilizados pela tripulação.
− Um estojo médico, para ser utilizado por um médico ou outra pessoa qualificada para o tratamento de emergências médicas durante o voo.
− Um desfibrilhador externo automático, para ser utilizado pela tripulação em caso de emergências cardíacas.
Algumas companhias aéreas estão equipadas com instrumentos de diagnóstico médico que permitem, através de um sistema telefónico a bordo, a transmissão dos sinais clínicos para um especialista num centro em terra (telemedicina).
A tripulação do avião recebeu formação para utilizar os materiais de primeiros socorros e para efectuar as manobras de ressuscitação. Habitualmente, também têm formação para reconhecer um leque de causas de emergências médicas e intervir adequadamente para controlar a situação.
Restrições médicas das companhias aéreas:
As companhias aéreas exigem ao passageiro uma certificação clínica pelo departamento médico da companhia, se houver indicação de que um dos passageiros pode sofre de alguma doença, física ou mental, que possa afectar de forma adversa o bem-estar e o conforto dos outros passageiros e/ou membros da tripulação, seja considerada risco potencial à segurança do avião ou exija assistência médica ou equipamento especial durante o voo ou seja agravada pelo voo.
As companhias aéreas reservam-se o direito de recusar o transporte de passageiros com situações passíveis de exacerbação da sua patologia ou que possam causar consequências graves durante o voo.
Os passageiros frequentes que estão crónica e permanentemente incapacitados podem obter um cartão médico de passageiro frequente no departamento médico da companhia aérea. Este cartão é aceite, mediante condições específicas, como prova de aval médico e identificação da incapacidade do seu portador.
Se a tripulação suspeitar, antes da partida, que há um passageiro doente, o comandante da tripulação é informado e é decidido se o passageiro pode viajar, se necessita de assistência médica ou se representa um risco para os outros passageiros ou segurança do avião.
Contra-indicações das viagens aéreas:
As viagens aéreas estão contra-indicadas nos seguintes casos:
- Recém-nascidos com idade inferior a 7 dias;
- Mulheres grávidas nas últimas 4 semanas de gestação (8 semanas para a gravidez múltipla) e até 7 dias após o parto2;
- Indivíduos com as seguintes situações:
- Angina de peito ou angor em repouso
- Qualquer doença contagiosa aguda severa.
- Sinusite, otite ou rinite infecciosa, particularmente se houver obstrução da trompa de Eustáquio.
- Doença da descompressão após o mergulho3.
- Aumento da pressão intracraniana, por hemorragia, traumatismo ou infecção ou se portador de Drepanocitose (anemia falciforme)
- Enfarte agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral recentes (o período de tempo depende da gravidade e da duração da viagem).
- Cirurgia ou traumatismo recentes, com eventual presença de ar ou gás, principalmente traumatismo abdominal e cirurgia gastrointestinal, lesões crânio-faciais e oculares, neurocirurgias encefálicas ou cirurgias oftalmológicas que impliquem penetração do globo ocular.
- Doença respiratória crónica severa, dispneia em repouso ou pneumotórax não curado.
- Hipertensão arterial não controlada com pressão sistólica superior a 200 mmHg (27 kPa).
Outra bibliografia aconselhadas:
Schroeder E, Taudorf U, eds. Air travel and transportation of patients: a guide for physicians, 2nd ed. Copenhagen, Danish Armed Forces Health Services, 1997.
McNeil EL. Airborne care of the ill and injured. New York, Springer Verlag, 1983.
Martin T, Rodenberg HD. Aeromedical transportation: a clinical guide. Aldershot, Avebury Aviation, Ashgate Publishing Ltd, 1996.
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2 Sujeita a aprovação médica, a viagem pode ser permitida após 24 horas em casos excepcionais, desde que a hemorragia tenha cessado e os níveis de hemoglobina sejam satisfatórios.
3 Os praticantes de mergulho de botija não devem voar demasiado cedo próximo do período de ocorrência do mergulho: nunca antes de 24 horas após vários dias de mergulho por tempo ilimitado ou 12 horas após um máximo de 2 horas de mergulho.
Colaboração: Cmte Jeferson Antonio Espindola - DAC 102197.