Voluntários levam água, comida, roupa e conforto a quem perdeu, na tragédia, parente, casa e esperança
Rio - Solidariedade. Milhares de pessoas dedicaram o fim de semana — algumas, a semana inteira — a ajuda às vítimas das chuvas. Em Niterói, no Clube Canto do Rio, a chegada de donativos e voluntários para trabalhar na triagem e distribuição acontece todo o tempo. São jovens, crianças, adultos e idosos, que chegam em grupos, ligados a igrejas ou organizações e também individualmente, movidos unicamente pela vontade de atenuar o sofrimento de quem perdeu tudo o que tinha na vida: família, casa e até esperança. Nas áreas em que bombeiros trabalham no resgate às vítimas e também nos abrigos oficiais, há quem se lembre de levar um pouco de conforto, na forma de água, comida, lanches ou mesmo um café. Só no Canto do Rio chegaram 34 toneladas de donativos.
O posto montado pelo governo do Estado em conjunto com a Prefeitura de Niterói no Canto do Rio funciona 24 horas. Voluntários trabalham de 8h às 22h. Chefe escoteiro, Luciano Gabrielli coordena a chegada. Anota os nomes, distribui crachás com o setor em que o voluntário vai atuar e fornece a orientação. Segundo ele, no momento, é preciso doar mais material de limpeza e de higiene pessoal, além de água mineral e roupas íntimas. “Acabaram-se as luvas descartáveis, que usamos para manusear os donativos. Isso é importante”, complementa.
Moradora de Niterói, a atriz Sônia Braga trabalha como voluntária. “Estou aqui enrolando saquinhos plásticos que chegam com os donativos para que eles sejam reaproveitados na distribuição de cestas básicas. Temos que pensar nesses detalhes. Precisamos de sacos plásticos grandes, caixas de papelão, fitas durex, barbantes de plástico para transportar”, diz ela.Ao seu lado, a pequena Carolina, 9 anos, conta que foi ao Canto do Rio no sábado. “Eu me senti tão feliz aqui que pedi à minha mãe para voltar hoje”, contou. O aposentado Carlos Alberto Arruda, 76 anos, e sua mulher, a terapeuta holística Dulce Pinheiro, 73, também estavam lá. “Em 1966, na grande enchente que atingiu a cidade, nós fizemos esse mesmo trabalho”, lembra Dulce.
Moradoras do Beltrão, em Niterói, as amigas Andrea, Vaniza, Maria e Simone decidiram ajudar. Sábado, foram ao Morro do Bumba fazer uma doação aos desabrigados. Domingo (ontem), elas voltaram com duas panelas de sopa de ervilha. “Viemos aqui e vimos que podíamos ajudar mais. Os bombeiros e voluntários não tinham alimentos quentes e resolvemos trazer uma sopa. Eles têm muito trabalho pela frente ainda. A vila inteira ajudou. Chegamos meio tarde porque não temos experiência em fazer essa quantidade de comida. Mas está boa, foi feita com muito carinho, com tudo limpinho”, contou a assistente administrativa Andréa Ferreira, 41 anos.
No Ciep Professor Júlio Rodrigues Perlingeiro, em São Gonçalo, 500 pessoas abrigadas recebem apoio e donativos. Talita Gomes Germano, 19 anos, chegou ontem, com a filha Talia Vitória, de somente um mês. Como ela, muitos deixaram suas casas. “Moro com minha mãe e meus irmãos, mas perdemos tudo e tivemos de vir para cá”, diz ela, com a filha nos braços, enquanto aguarda a orientação para se dirigir a uma das salas de aula transformadas em quartos.
Helicóptero faz entrega de donativo
Um helicóptero foi cedido pela 2ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal para ajudar na distribuição dos donativos. Policiais da Divisão Aérea que trabalharam nas enchentes de Santa Catarina estão levando o material para as regiões de difícil acesso. “Isso facilita muito. Em média, os caminhões levam até duas horas e meia para chegar aos locais. Agora, o helicóptero faz o percurso em 20 minutos”, conta o subsecretário estadual de Governo da região, André Felipe.
Superintendente da Secretaria de Assistência Social, Rodrigo Abel participou da entrega de donativos em São Gonçalo e destacou que a cidade teve um número de mortos inferior ao de Niterói, mas a cidade tem 6.500 desabrigados pelas chuvas. “Nos bairros Palmeiras e Salgueiro, há regiões inteiras alagadas, onde as pessoas perderam tudo. No Novo México, o deslizamento é semelhante ao do Morro do Bumba. Não foram tantas vítimas, mas a situação lá é trágica”, descreveu.