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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Para salvar vidas, treinamento puxado - Pará

“Vai xerife, acelera, senão vai pagar dez”. Ouvidas assim, em tom forte e impositivo, essas palavras poderiam lembrar algum treinamento militar, dignas de filmes como “Nascido para Matar” ou “Tropa de Elite”. Mas eram direcionadas a médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e condutores de veículos da Unidade de Suporte Avançado, que em Belém é conhecida popularmente como Samu, o atendimento médico feito emergencialmente nas ruas da cidade. Era um treinamento especial realizado no último sábado para que esses profissionais fiquem cada vez mais aptos a enfrentar situações dramáticas, como a queda de um edifício, por exemplo.

Denominado de “Treinamento em vias de acesso e resgate em locais fechados”, reuniu 30 profissionais em uma fazenda em Terra Alta, próximo ao município de Castanhal. Sob o comando de especialistas, como o coronel Moraes, do Corpo de Bombeiros, Luís Heleno Oliveira, do Samu e o médico José Guataçara Gabriel, os profissionais de saúde fizeram rapel, desceram em poços, resgataram feridos de dentro de um carro amassado, atravessaram um igarapé e resgataram sobreviventes de um escombro.

As simulações buscaram reproduzir situações reais de emergência. A qualidade e a rapidez no atendimento eram as prioridades exigidas das equipes. “É necessário pensar e agir rápido, mas com organização e cuidados necessários”, diz o especialista Guataçara, que está atualmente à frente do Samu.

A equipe de treinandos saiu de Belém às 5h30 de sábado. Cerca de um quilômetro de distância do local exato dos treinamentos, todos foram orientados a descer do ônibus e ir correndo até o centro da fazenda. Era o primeiro sinal de que o dia seria puxado. No meio do caminho, simulações de atendimento emergencial e transporte de vítimas em macas.

“Estamos observando a questão da liderança, do trabalho em equipe, o conhecimento dos procedimentos e o uso adequado dos equipamentos”, explicou Heleno Oliveira. “Temos que pensar que os locais onde a equipe vai atuar são difíceis, com mato, lama, escombros. Temos que estar preparados para chegar o mais rápido possível”, complementa Gabriel.

Depois do rápido café da manhã (“cinco minutos, pessoal”, gritavam Oliveira e Gabriel), a equipe ouviu palestras e assistiu vídeos sobre o que é certo e errado no atendimento de emergência em situações-limite.

Nessa parte teórica, os profissionais de saúde ouviram sobre a técnica criada na Califórnia, chamada de ‘Start’, que delimita os primeiros procedimentos de triagem de atendimentos. Segundo Guataçara Gabriel, os hospitais de Belém não têm pessoal treinado para retirada de traumatizados. “No dia em que tivermos a interação de atendimento inicial da rua até chegar ao bloco cirúrgico, diminuiremos o número de mortos”.

PRÁTICA

Finda a parte teórica, os ‘alunos’ foram levados ao campo de treinamento. Trabalho pesado. Enquanto uma equipe treinava a retirada de feridos do interior de um veículo amassado por abalroamento, outra vencia o medo de altura para a saída em rapel de um helicóptero.

“Tive que vencer a minha dificuldade com altura”, admitia a técnica em enfermagem Valdirene Macedo, 42 anos, profissional há duas décadas. “Não adianta pegar gente que nunca fez rapel e levar para uma operação. Por isso é importante esse treinamento”, diz o coronel Moraes, do Corpo de Bombeiros. Na primeira etapa, o desafio era menor, descer de uma altura de menos de cinco metros. Vencida essa barreira, surgia o desafio de reproduzir o mesmo movimento em uma altura pelo menos quatro vezes maior.

Atenta aos movimentos feitos pelas equipes no atendimento inicial e transporte, a enfermeira Chrissia Damous alertava sobre a importância dos cuidados que se deve ter na hora de manipular o ferido. “Se não tiver o treinamento, é comum e possível aumentar a lesão”, diz.

“Conseguimos reproduzir nesse espaço tudo o que já vi em tantos anos de experiência”, diz Guataçara Gabriel, proprietário da fazenda e quem criou o local de treinamento que já se tornou referência no resto do país. “O Pará é reconhecido no Brasil por ter um trabalho de excelência nesse tipo de atendimento”, por conta de treinamentos desse tipo, severo, quase militar, mas com resultados para toda a população.

Fonte:  http://diariodopara.diarioonline.com.br/  - Diário do Pará

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