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domingo, 13 de março de 2011

Vencendo os traumas: um novo paradigma na psicoterapia

EMDR - Eye Movement Dessensitization and Reprocessing (Dessensibilização e Reprocessamento pelos Movimentos Oculares) é uma nova forma de psicoterapia descoberta por Dra. Francine Shapiro em 1987 nos Estados Unidos. De lá para cá, mais de cem mil terapeutas foram capacitadas mundialmente na abordagem que hoje representa uma mudanças de paradigma na psicoterapia.

Adriana Kortlandt entrevista Esly Carvalho

Esly Regina de Carvalho é mestre em Psicologia, e Treinadora de EMDR, reconhecida pelo EMDR Institute dos Estados Unidos. Esly tem consultório em Brasília e viaja com freqüência para dar cursos de formação em EMDR para psicólogos e psiquiatras. Adriana Kortlandt, é psicoterapeuta de EMDR. Durante muitos anos foi diretora da Air Safety Assessoria Aeronáutica, e direcionou o trabalho de psicologia à atividade aérea.

Adriana Kortlandt: O que é EMDR?

Esly Carvalho: EMDR representam as siglas do inglês (Eye Movement Desenzitization and Reprocessing) que significam Dessensibilização e Reprocessamento por meio de Movimentos Oculares. É uma abordagem psicoterapêutica capaz de reprocessar traumas e lembranças dolorosas armazenados de forma disfuncional no cérebro. O EMDR promove a integração das informações que se encontram separadas nos dois hemisférios cerebrais. Medos, fobias, terrores e ansiedades vinculados às lembranças difíceis, mantém as pessoas presas aos fantasmas do passado. Poderíamos dizer que o EMDR “imita” de forma acelerada e adaptativa, o que acontece durante a etapa do sono REM (Rapid Eye Movement – movimento rápido ocular), quando o cérebro processa a informação diária, “arquivando-a” no passado. Por alguma razão ainda não completamente compreendida, em determinadas situações as pessoas não conseguem realizar este processamento de forma normal e saudável. Isso possivelmente determina os pesadelos, sobressaltos, pensamentos intrusivos e obsessivos, crises de pânico e, em casos mais graves, o Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT) e suas conseqüências. Em casos excepcionais também pode ocasionar Transtornos Dissociativos de Identidade.

Adriana Kortlandt: Existe comprovação científica para a eficácia desta abordagem?

Esly Carvalho: Sim. Vou citar um exemplo: A psicóloga Karen Lansing realizou pesquisa no Department of Research and Information Systems na Califórnia, com policiais com o diagnóstico de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) devido a confrontos a mão armada. Seis policiais foram avaliados antes de depois da intervenção terapêutica feita por uma psicóloga de EMDR. Os instrumentos de avaliação foram a Escala de Diagnóstico de Estresse Pós-Traumático, bem como tiveram sua atividade cerebral registrada pelo SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography). O resultado foi uma redução significativa do quadro clínico de cada um destes policiais. A memória traumática foi, ou curada, ou reduzida a um grau, onde a pessoa não se sentiu mais incapacitada para exercer suas funções, nem perder qualidade de vida pessoal.

Adriana Kortlandt: O EMDR só serve para tratar memórias difíceis? E se meu trabalho envolve exposição a situações de risco, ou me coloca em contato com sofrimento humano, o EMDR poderá me ajudar de alguma forma?

Esly Carvalho: O EMDR pode ajudar a pessoa a reprocessar experiências difíceis. A vivência de situações trágicas, tais como a perda real de entes queridos, a ameaça de perda ou o risco de morte, bem como a exposição constante a situações de risco podem ocasionar um trauma na pessoa. Um bom indício da existência do trauma é a impressão de que a experiência passada insiste em permanecer no presente. Basta que a pessoa se lembre do evento perturbador, mesmo sem querer, para que uma emoção marcante, pensamentos negativos e/ou imagens nítidas se intensifiquem. O assunto reluta em virar passado! Quando a exposição à experiências difíceis é constante a questão é também muito delicada, pois a constância, ratifica o trauma: a pessoa está sempre em estado de “sobressalto” ou hipervigilância. Estudos realizados com o auxílio de tomografias de alta precisão sugerem que a experiência traumática é tão forte que altera o funcionamento cerebral. Quando o cérebro é submetido a estresse crônico, a pessoa não consegue sair deste quadro de ansiedade crônica.

Esta nova abordagem para o tratamento de traumas emocionais foi desenvolvida pela doutora Francine Shapiro no final dos anos 80, na Califórnia. Desde então, o EMDR tem sido um dos métodos psicoterapêuticos mais amplamente pesquisados nos EUA na atualidade, com recomendação especial da American Psychiatric Association. Respondem muito bem ao método pacientes com transtornos de ansiedade, em especial o estresse pós-traumático (TEPT). Denominado genericamente de psicoterapia de reprocessamento, o EMDR foi idealizado como psicoterapia breve e focal.

Apesar de ter sido inicialmente desenvolvido para tratar traumas e os transtornos derivados, tais como abusos sexuais ou estupros, assaltos, ataques/cenas de violência, seqüela de guerra e de desastres naturais, etc. atualmente se aplica também no manejo de dor crônica, já que sabemos que a dor física tem componentes emocionais – e traumáticos – que costumam responder bem a este tratamento. O EMDR também é utilizado em casos de luto e depressão, fobias, desordem de pânico, dependência química e adições. Ademais, tem se utilizado o EMDR para a instalação de recursos positivos fortalecendo aquelas pessoas que trazem consigo uma fragilidade inerente ou adquirida; e no aprimoramento do desempenho de profissionais, tais como atletas e artistas em geral.

Adriana Kortlandt: O que acontece com a memória em situação de trauma?

Esly Carvalho: A memória traumática difere da memória comum. Ao ser indagado sobre o cardápio do almoço de quinta-feira da semana passada, um indivíduo provavelmente responderia: "Não tenho a menor idéia!". Neste caso, a memória perdeu sua relevânica e foi arquivada de uma forma funcional. Em contraposição, a memória do trauma guarda detalhes visuais nítidos, lembranças auditivas, físicas, e/ou emocionais, e comumente é vivida como se tivesse ocorrido há pouco tempo. A memória fica, portanto, registrada e “congelada” no cérebro, principalmente no hemisfério direito. Por outro lado, as ferramentas que nos permitem conferir novo significado à experiência e produzir uma narrativa de eventos se encontram no hemisfério esquerdo, responsável por nossa linguagem.

Adriana Kortlandt: Quanto tempo demora o tratamento em média?

Esly Carvalho: Não é possível prever, mas a abordagem terapêutica do EMDR pertence à categoria das chamadas terapias breves. Temos possibilidade de resolver problemas num passo muito mais rápido que as terapias mais tradicionais. Como diz um amigo meu: não se faz mais terapia como antigamente!

Adriana Kortlandt: Por que você diz que o EMDR é uma mudança de paradigma na psicoterapia?

Esly Carvalho: Primeiro, vale ressaltar que não é preciso falar para sarar. Com o EMDR, a fala pode ser mínima durante o período de reprocessamento cerebral o que permite que o paciente possa trabalhar suas lembranças em privado. Levando em consideração que muitos traumas são de caráter violento, sexual ou humilhantes, o fato de não ter que entrar em detalhes gráficos muitas vezes permite que o paciente enfrente a lembrança sem tanta vergonha.

Segundo, é comum a resolução da dificuldade se dá em um passo muito mais rápido, como comentamos anteriormente. Terceiro, o reprocesamento permite que certos estados de alerta, comum à ansiedade, se resolvam, “avisando” ao cérebro que o perigo vinculado à experiência vivida já passou. O EMDR reprocessa e integra essas informações cerebrais e permite que se possa atribuir sentido ao ocorrido e acalma um sistema límbico atordoado.

Adriana Kortlandt: Quem pode aplicar este tratamento?

Esly Carvalho: Psicoterapeutas devidamente capacitados e certificados por treinadores reconhecidos pelo EMDR Institute dos Estados Unidos (psicólogos ou psiquiatras, ou médicos com longa especialização em psicoterapia). Recebe-se a certificação também pela EMDR ibero-América em convênio com EMDR Brasil.

Adriana Kortlandt: Há algum problema de se fazer EMDR em caso de uso de algum medicamento?

Esly Carvalho: Os medicamentos em geral não afetam o reprocessamento de EMDR salvo os benzodiazepínicos, mas mesmo nestes casos vale a pena tentar ou renegociar a medicação com o psiquiatra. Também vale lembrar que muitos pacientes se auto-medicam e isso deve ser avaliado. A cocaína e as anfetaminas também podem impedir o reprocessamento cerebral. É importante informar ao terapeuta o uso de medicamentos.

Adriana Kortlandt: Como se pode encontrar mais informações sobre o EMDR ou terapeutas que exercem essa abordagem?

Esly Carvalho: A melhor maneira é procurar no site de www.emdrbrasil.com.br que contém essas informações assim como uma página, Procure um Profissional, onde os terapeutas podem ser encontrados segundo o seu estado e cidade.

Informações Adicionais sobre o EMDR: 

Esly Regina Souza de Carvalho, MSc.
SEPS 705/905 Ed. Santa Cruz, sala 119, Brasilia, DF
61 3242 5825 / 3443 8447

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